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sexta-feira, 26 junho 2020 21:26

O desafio dos tempos que correm

Há convites e desafios para os quais o “Não” não pode ser resposta! Em boa hora o professor António José Oliveira aceitou o desafio lançado pelo Sr. Diretor do Agrupamento, o professor Manuel Pereira, de escrever para o semanário Expresso e, assim, fazer das suas as nossas palavras. O texto, de sincera pertinência, não só tem o mérito de retratar o dia a dia do que tem sido o trabalho, as inquietações e as superações de muitos professores, mas, certamente, alunos e famílias se reveem também nesta crónica. Há textos assim, que nos tocam, que nos retratam coletivamente, que nos deixam orgulhosos!

Parabéns, professor António José Oliveira, colega e amigo Tó Zé!

“Transforme as pedras em que você tropeça nas pedras da escada.”    (Sócrates)

Prof.ª Cristina Marques

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Ler 43 vezes Modificado em sexta-feira, 26 junho 2020 21:52

Mídia

Todos nos reinventámos: professores, alunos e famílias – António Oliveira

Em 26 anos de carreira docente e ao lecionar em várias escolas do norte ao sul do país, deparei-me com muitas situações expectáveis, mas mais ainda com diversas situações inesperadas. Os professores são preparados para lidar com situações de doença crónica dos alunos, assim como distúrbios de comportamento e aprendizagem. São situações que, por vezes, nos angustiam, mas com as quais aprendemos a lidar. Somos ainda treinados para lidar com momentos mais ou menos sinistros. Nos planos de emergência das escolas, por exemplo, está prevista a realização todos os anos de treinos de evacuação de forma a preparar a comunidade escolar para eventualidades que todos desejam que nunca venham a acontecer. Falo-vos de incêndios, sismos ou outra calamidade qualquer.

Ora, tudo isto faz-nos sentir, pelo menos em teoria, minimamente preparados para cenários de crise. E por falar em crise, até a mais recente crise económica deixou nos professores alguma desenvoltura, ou melhor, algumas cicatrizes na sua dignidade profissional em forma de subtração de anos, meses e dias. Mas e quanto a pandemias e às crises que se lhes seguem? Quantas vezes este tema foi abordado na formação de professores ou em termos de dinâmica interna das organizações escolares? A própria palavra pandemia pareceu sempre longínqua, no tempo e no espaço.

Durante o mês de fevereiro, estivemos debaixo de fogo com notícias sobre a covid-19, mas nada fez prever perturbações profundas no dia a dia das escolas, muito menos uma interrupção forçada das atividades letivas. Quase de um momento para o outro, começámos a receber notícias de colegas de outros países europeus onde o flagelo pandémico já se fazia sentir, como em Itália, de onde uma professora amiga me confidenciava, no início de março, que estavam a viver dias assustadores, que as escolas estavam já encerradas e que tinham iniciado o ensino à distância. Dizia acreditar que a única forma de parar o contágio era fechar as escolas o quanto antes. Foi quando comecei a sentir que algo de diferente se aproximava também da realidade portuguesa.

Todos nós sentimos que ninguém está preparado para lidar com tal cenário. Não está, mas vai ter que estar, pensávamos todos. E este conflito entre as notícias que chegam da Europa e do mundo e a espera pelas necessárias e difíceis tomadas de decisão da tutela aumentava a angústia nas escolas. Quando soubemos que a 16 de março seriam forçosamente interrompidas as atividades letivas, balançámos entre a surpresa e o alívio. Se até aqui havia alguma dúvida, a partir desse dia percebemos que a pandemia se tinha instalado. E sem avisar quando se ia embora. Se não de vez, pelo menos por uns bons e longos tempos. Assumiu a sua forma sanitária mas também a sua forma económica, com todas as consequências que isso trará no futuro próximo.

O tempo foi passando, a correr como sempre corre e depressa nos apercebemos que havia que repensar o presente e ainda mais o futuro. Todos nos reinventámos: professores, alunos, famílias. Num abrir e fechar de olhos, familiarizámo-nos com plataformas de videoconferência como se fossem utilizadas no nosso quotidiano desde sempre. Começámos todos a tratar por tu as ferramentas web que, por sua vez, permitiram que tratássemos igualmente por tu a distância. Não que não estivéssemos habituados à distância. Sendo professor do quadro em exercício de funções na Escola Básica General Serpa Pinto de Cinfães e residente em Viseu, eu e a maior parte dos professores que trabalham nesta escola estamos habituados à estrada e a percorrer todos os dias grandes e sinuosas distâncias. Contudo, não deixa de ser um obstáculo a juntar a tantos outros que se levantaram nesta fase. E não fossem os profissionais da educação gente de garra, resilientes lutadores pela melhoria das condições de vida dos seus alunos e respetivas famílias e habituados a procurar as melhores metodologias para tornar os seus alunos cidadãos responsáveis e em permanente aprendizagem, e o impacto da crise pandémica seria ainda mais negativo e, diria, até mais catastrófico.

A sala de aula passou a ser o quarto ou a cozinha do aluno, o escritório ou a sala do professor. Entre pessoas que se cruzavam todos os dias passou a estar um ecrã de computador ou smartphone. Habituados a trabalhar e com esforços de trapezista, por vezes “sem rede”, passámos a estar dependentes de outra rede (de internet), cuja cobertura em muitas regiões do país é ainda deficitária. Tudo mudou, é verdade. Mudaram os espaços, as ferramentas e estratégias de ensino e até os interlocutores. Do outro lado do ecrã passei a ter não só os filhos mas também os pais, atentos e colaborantes, outras vezes mais reivindicativos por se sentirem exaustos e incapazes de ajudar os seus filhos. Os professores, agora em teletrabalho, passaram a permanecer horas infindas em frente do computador: umas vezes a preparar tarefas para os alunos (quer para os possuidores de meios informáticos e acessibilidade à net, quer para os que as não possuem, sem esquecer a importância da individualização das estratégias para os alunos com necessidades especiais), outras vezes a corrigi-las e ainda outras a realizar sessões síncronas com os alunos para manter a proximidade possível e o acompanhamento necessário. Mas nem todos estão presentes.

Aqueles cuja distância é maior, por não terem forma de contornar a falta de meios tecnológicos que lhes permitam participar nas sessões com os seus professores e restantes colegas, continuam a grande distância das oportunidades. A insistente súplica do diretor do agrupamento para que não deixemos nenhum aluno para trás aumenta a angústia de perceber que, afinal, ainda há muitas crianças que não estão à distância de um clique. E se o clique não nos une aos nossos alunos, há sempre uma chamada telefónica, uma ficha ou um texto que se envia por alguém, esperando que, na volta, traga novidades sobre o que de novo aprendeu, mas também um pouco do seu dia a dia.

Os dias têm passado e sente-se um leve desapertar do garrote do confinamento. O final de mais um ano letivo está à porta e com ele mais incertezas do que certezas. De entre as certezas, a de que não vale a pena sacrificar mais os nossos alunos além da penalização de estarem privados do contacto com os seus pares e com os seus professores. A dúvida persiste, escondendo-se atrás da cortina do medo. O que nos espera no próximo ano letivo? Como podemos prepará-lo (como seria normal estarmos já a fazê-lo), se não sabemos em que condições podemos regressar à nossa normalidade, ainda que seja uma normalidade diferente? São incertezas atrás de incertezas. Ou, afinal, é só mais uma a juntar às outras que nos apoquentam enquanto professores no final de um ano letivo e no início do seguinte. Nenhuma outra terá os contornos da incerteza dos dias que estamos a viver.